
A mastite subclínica é uma doença invisível ao olho nu, ou seja, só conseguimos determinar o seu diagnóstico por meio de exames específicos (CMT, CCS, condutividade elétrica e cultura microbiológica). Rotineiramente, consideramos que o animal possui mastite subclínica quando apresenta CMT positivo para qualquer quarto mamário, ou ainda, nos exames de CCS quando o animal apresenta valores superiores a 200.000 células/ mL.
A prevalência desse tipo de mastite é consideravelmente superior à da mastite clínica, compreendendo entre 90 e 95% dos casos encontrados em condições normais, sem a presença de surtos clínicos nos rebanhos.1
Dentre a classificação dos agentes infecciosos envolvidos, geralmente categorizamos em dois grandes grupos de bactérias: contagiosas e ambientais. Neste artigo, vamos abordar os agentes contagiosos, os quais geralmente possuem maior adaptação à glândula mamária dos bovinos, causando infecções persistentes sem sinais clínicos graves. Porém, tais infecções crônicas e silenciosas, podem se comportar como um “inimigo oculto” que leva a prejuízos diretos e indiretos, como por exemplo, diminuição da produção, descarte precoce de animais, falhas reprodutivas, alteração na composição do leite e menor tempo de prateleira dos produtos derivados, consequentemente, causando impactos em todos os setores da cadeia.
Transmissão
A transmissão geralmente ocorre durante as ordenhas, por meio de vacas infectadas para vacas sadias. Vamos citar algumas causas para melhor entendimento.
Mãos dos ordenhadores: quando não há o uso de luvas descartáveis durante a manipulação dos tetos durante a ordenha.
Papel toalha ou toalhas: utilizadas na secagem de mais de um teto, ou em vários animais.
Falhas no funcionamento do equipamento de ordenha: flutuação de vácuo e refluxo de leite.
Falhas na rotina de ordenha diária: aplicação incorreta de pré e pós-dipping.
Alta infestação de moscas durante o processo de ordenha: estudos demostram que moscas, inclusive as domésticas, são potenciais transmissoras de bactérias causadoras de mastite, como por exemplo, S. aureus.2
Neste artigo, vamos abordar os agentes contagiosos, os quais geralmente possuem maior adaptação à glândula mamária dos bovinos, causando infecções persistentes sem sinais clínicos graves.
Conhecendo os inimigos (agentes causadores)
Dentre as principais bactérias causadoras de mastite contagiosa, podemos destacar algumas espécies, como por exemplo, o Staphylococcus aureus, Streptococcus agalactiae, Corynebacterium bovis, Mycoplasma bovis, além de bactérias com comportamento misto, transitando entre um padrão contagioso ou ambiental, a depender do rebanho. Dentre elas, Streptococcus dysgalactiae, Streptococcus uberis, e o grande grupo dos Staphylococcus não-aureus.
O objetivo deste artigo é comentar um pouco sobre cada uma delas, no que diz respeito às formas de transmissão e manutenção no rebanho, além das medidas adequadas de prevenção e tratamento de casos clínicos.
Staphylococcus aureus
É um dos principais agentes causadores de mastite contagiosa. Além das infecções subclínicas, também pode causar quadros crônicos de mastite clínica, com baixa taxa de cura após terapias antimicrobianas. O reservatório desta bactéria geralmente são os quartos mamários de vacas infectadas que, quando não segregadas na linha de ordenha, transmitem de um animal doente para um animal sadio. As mãos contaminadas dos ordenhadores, panos de uso múltiplo, flutuação de vácuo na ordenha, além de participação de vetores como as moscas, são importantes vias de transmissão do agente. Além disso, estudos3 demonstram que vacas primíparas podem ser reservatórios de S. aureus, em casos relacionados aos hábitos de mamada cruzada (uma bezerra mamando na outra), ainda quando bezerras.
As mastites por S. aureus podem apresentar melhores taxas de cura durante a lactação quando são diagnosticadas em primíparas na fase inicial de lactação (primeiro terço), e sem histórico de mastite clínica no quarto mamário. Portanto, medidas como a adoção de cultura bacteriana em animais no pós-parto são uma importante ferramenta para controle desse agente. Em casos de tratamento com antibióticos nesses animais, recomenda-se o uso de terapia estendida4 (entre 5 e 8 dias). Em animais crônicos (com 2 ou mais lactações) positivos para S. aureus, recomenda-se algumas opções mais drásticas, como a antecipação da secagem com o uso de intramamário vaca seca, secagem permanente do quarto infectado ou descarte do animal, devido à baixa taxa de cura nestas situações.
Devido ao perfil comportamental do agente infeccioso, vale ressaltar que animais positivos para S. aureus tem, de maneira geral, baixa taxa de cura com as terapias antimicrobianas disponíveis na atualidade, reforçando a importância das medidas de profilaxia e controle na disseminação do agente.
Streptococcus agalactiae
São microrganismos transmitidos exclusivamente de vacas para vacas durante o processo de ordenha. Devido à baixa capacidade de sobreviver no ambiente, essa bactéria pode ser erradicada dos rebanhos. Em determinadas regiões, esse agente foi eliminado com sucesso após amplos programas de erradicação (Ex.: América do Norte e Europa), porém, no Brasil ainda encontramos uma alta prevalência em rebanhos leiteiros.
Infecções intramamárias por S. agalactiae causam bastante prejuízo em fazendas brasileiras, por ter um impacto muito negativo na qualidade do leite, como aumento na CCS e contagem bacteriana total (CBT) no tanque das fazendas. Além de ser um agente com alta taxa de transmissão e infecção dentro dos rebanhos.
Quando diagnosticado corretamente, por meio do exame de cultura bacteriana do leite em todos os animais do rebanho com CCS acima 200 mil, encontramos bons resultados frente ao uso de antibióticos em estratégias de tratamento e erradicação.
Geralmente, a taxa de cura é superior aos 90% quando realizamos a Blitz terapia, ou seja, tratamento massivo de todos os animais positivos no mesmo período, com produtos à base de β-lactâmicos, entre 3 e 4 dias consecutivos. Após 7 dias do fim da carência do antibiótico, recomenda-se refazer a cultura bacteriana dos animais, para avaliação da taxa de cura. Animais que não apresentarem cura, devem ser submetidos ao protocolo de secagem.
Corynebacterium spp.
A espécie que apresenta maior prevalência entre os gêneros de Corynebacterium isolados em glândula mamária é o Corynebacterium bovis. Infecções intramamárias por C. bovis são causas potenciais para o aumento de CCS e diminuição nas concentrações de lactose do leite, além de estarem associadas à quadros de cronicidade em animais contaminados.
As medidas para redução na prevalência desse agente envolvem práticas para a melhoria na rotina de ordenha, principalmente da eficácia na aplicação de pré e pós-dipping. Por ser considerado comensal da microbiota do teto, o tempo de ação e princípio ativo do produto utilizado, além da limpeza completa da ponta dos tetos são primordiais no controle desse agente. Além disso, um bom protocolo de secagem, geralmente possui boa eficácia para o controle de C. bovis nos rebanhos.
De maneira geral, este agente não será um problema na maioria das fazendas que possuem um bom programa para controle de mastite. Portanto, altas prevalências de mastites por C. bovis podem ser consideradas um indicador de falhas na rotina de ordenha, especialmente quanto à correta aplicação do pós-dipping.
Como as taxas de cura com o uso de antibióticos são questionáveis em casos de mastite subclínica por C. bovis, não se recomenda o tratamento em casos subclínicos e sim uma melhora na rotina de ordenha, além do protocolo de secagem.
Mycoplasma bovis
Infecções por M. bovis são causas de mastite subclínica em várias partes do mundo. No Brasil esse agente ainda é pouco diagnosticado, devido à dificuldade do seu diagnostico em métodos normalmente utilizados em laboratórios. Características como a ausência de parede celular rígida, crescimento lento em meios de culturas específicos e condições anaeróbicas, tornam complexo o isolamento rotineiro de M. bovis nas fazendas brasileiras.
O M. bovis é um patógeno de alta patogenicidade em rebanhos contaminados, pois vacas infectadas se tornam agentes disseminadores para outras vacas e bezerras, eliminando o agente pelo resto de sua vida produtiva. A contaminação para bezerras ocorre por ingestão de leite contaminado pelo agente durante a amamentação.
As mastites causadas por M. bovis geralmente são de difícil cura com o uso de antibióticos, devido aos mecanismos de evasão e alta taxa de resistência antimicrobiana do agente. Por isso, vacas positivas devem ser segregadas das demais e posteriormente descartadas, além da adoção de um controle rigoroso de novos animais no rebanho, visando a eliminação na circulação desse patógeno que traz grandes prejuízos às propriedades leiteiras.
Streptococcus dysgalactiae
Esse patógeno pode apresentar comportamento misto, transitando entre ambiental e contagioso, a depender do rebanho em questão.5 Devido à sua capacidade de sobrevivência e persistência no interior da glândula mamária, sua transmissão entre vacas pode ocorrer durante a rotina de ordenha. Além disso, o S. dysgalactiae pode ser encontrado no ambiente, que deve ser mantido limpo e seco, especialmente nas estações chuvosas.
Maior frequência de limpeza de camas em sistemas free stall, e maior reposição e viragem das camas em sistemas de compost barn, são medidas importantes para o controle na disseminação de agentes com características ambientais. Em sistemas de pastejo, eliminar áreas de muita lama e esterco (Ex.: ao redor de cochos e bebedouros), também são estratégias adequadas para a redução na matéria orgânica e possível disseminação de agentes ambientais.
Para a prevenção de S. dysgalactiae devemos focar em uma rotina de ordenha bem feita, com o uso de luvas por ordenhadores, pré e pós-dipping cobrindo toda a superfície do teto, uso de papel toalhas ou toalhas bem secas e individuais, terapia de vaca seca e manutenção periódica do equipamento de ordenha.
Geralmente, os casos de mastites clínicas e subclínicas por esse patógeno respondem bem ao tratamento com antibioticoterapia intramamária, por um período entre 3 e 4 dias.
Streptococcus uberis
Atualmente, é o agente de maior prevalência causando mastite em bovinos de diferentes partes do mundo. O S. uberis é comumente encontrado nas fezes dos bovinos e podem sobreviver até duas semanas em ambientes contaminados por fezes.
Essa bactéria tem grande relevância nos sistemas confinados, devido às altas taxas de lotação e maior risco desse microrganismo atingir a glândula mamária. Portanto, o manejo correto da cama é fundamental para a prevenção e controle.
Rebanhos com infecções por S. Uberis apresentam alta de CCS no tanque e alta incidência de mastite clínica. Esse agente possui alta taxa de cronicidade e baixa taxa de resposta a antibioticoterapia dependendo da cepa encontrada.
Desta forma, em animais com histórico de infecções por S. Uberis e sem histórico de cronicidade, se recomenda o tratamento estendido por um período entre 5 e 8 dias com antibióticos intramamários, além da associação combinada com antibióticos injetáveis4,6 (Ex.: Tilosina Base e Hidroiodeto de Penetamato).
Staphylococcus não-aureus (SNA) ou Staphylococcus coagulase negativa (SCN)
Compreendendo mais de 50 espécies e subespécies diferentes, a espécie de maior prevalência em rebanhos leiteiros neste grupo de bactérias, geralmente são os Staphylococcus chromogenes, os quais podem aumentar a CCS das vacas de forma moderada, sem causar grandes prejuízos em produção ou composição do leite.7 Infecções por este grupo de bactérias, são bastante comuns em animais de primeira lactação logo após o parto, ou ao final de lactação em vacas multíparas.
Esse microrganismo geralmente está presente na pele dos tetos dos bovinos, podendo contaminar os animas quando existem lesões nos tetos, ou falha nos procedimentos de ordenha, como a adequada rotina de aplicação de pré e pós-dipping.
Devido às altas taxas de cura espontânea perante a ação do sistema imunológico em animais imunocompetentes, geralmente não se recomenda o tratamento em situações de mastites subclínicas. Em casos de mastite clínica por SNA, recomenda-se o tratamento com antibioticoterapia intramamária, por um período entre 3 e 4 dias.
Consideração Final
A mastite subclínica é umas das doenças de maior relevância dentro das fazendas leiteiras e, com certeza, gera bastante prejuízos a toda cadeia produtiva do leite.
“A qualidade do leite é uma obrigação de todos que o produzem, onde o maior prejudicado com o leite de baixa qualidade, são os próprios produtores com perdas de produtividade dos animais afetados.”
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